terça-feira, 20 de julho de 2010

Noyée

Quem gerencia a vida do gerente?

terça-feira, 4 de maio de 2010

The doors

Enfileiram-se as portas sem substância
Desprendidas de paredes, envoltas em ar.
Atrás de cada uma delas
Um mistério
Um prêmio
Uma descoberta
Um monstro
Uma resposta
Uma interrogação
Uma chave
Tudo
Ou nada.
Enrodeiam-no as portas
Abertas ou arrombadas.
Ele não se atreve a transpô-las
Sua curiosidade não quer saber
O que se esconde ou se exibe além.
Mas não consegue fechá-las.
Em vez disso, olha pelo buraco da fechadura
E espana o vestíbulo vez ou outra.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Espaço vital

Cito:
"Em geografia política, o conceito de espaço vital (em alemão, Lebensraum) foi concebido por Friedrich Ratzel [...]. O espaço vital seria o espaço necessário para a expansão territorial de um povo, no caso, alemão. [...] Espaço onde as necessidades relativas à dominação territorial, recursos minerais etc desse povo seriam realizadas.[...] [O conceito foi abraçado por ninguém mais ninguém menos que Hitler himself - meu comentário], que considerava que a 'raça ariana' [...] deveria permanecer unida, e, para tanto, a Alemanha deveria possuir um território maior. [...] Tal argumento foi [...] utilizado como discurso de justificativa da marcha alemã sobre a Europa [...]."

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Moral da história: isso de não respeitar o espaço alheio (no sentido estrito ou figurado) é coisa de alemão nazista. Por isso é compreensível - e justo - que as pessoas, sentindo-se invadidas no seu Lebensraum, partam para a briga. E, como todos sabem, no amor e na guerra vale tudo...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Sobre ser super herói



"Como você sabe, eu gosto bastante de histórias em quadrinhos, principalmente sobre super heróis. Eu acho fascinante toda essa mitologia que envolve os super heróis. Veja por exemplo meu super herói favorito: Super Homem. Não é uma grande revista, nem é particularmente bem feita, mas a mitologia... A mitologia não é apenas maravilhosa, é única!
(...) Um pilar da mitologia dos super heróis é que existem o herói e seu alter ego. Batman é, na verdade, Bruce Wayne, o Homem Aranha é, na verdade, Peter Parker. Quando ele acorda de manhã, ele é Peter Parker; ele precisa vestir uma fantasia para se tornar o Homem Aranha.
E é nesse ponto que o Super Homem se destaca. O Super Homem não se tornou o Super Homem, ele nasceu Super Homem .
Quando o Super Homem acorda de manhã, ele é o Super Homem. Seu alter ego é Clark Kent. Ele anda por aí com aquele grande "s" vermelho. É o cobertor em que ele estava enrolado quando era um bebê e foi encontrado pelos Kent. É a roupa dele. O que Clark Kent veste, os óculos, o terno, aquilo é a fantasia. É a fantasia que o Super Homem usa para se misturar aos humanos.
Clark Kent é como o Super Homem nos vê. E quais são as características de Clark Kent? É fraco, inseguro, um covarde. Clark Kent é uma crítica do Super Homem a toda a Humanidade (...)".

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A tradução é minha, mas a genialidade do diálogo é do Quentin Tarantino.
Depois da argumentação sobre ser ou se tornar super herói, Bill diz a Beatrix que ela não pode fugir à sua natureza de assassina. Ela pode até tentar ser uma pessoa convencional, que se casa com um mané qualquer no interior e faz churrascos no fim de semana, mas, no fundo, ela será sempre uma assassina e é inútil tentar mudar isso. Como depois do diálogo ela mata Bill, todos sabem disso, evidentemente a hipótese se confirma, mais ou menos como aquela história do escorpião e da rã e como a música do Caetano sobre a dor e a delícia de ser o que se é.
Às vezes acho que, quando passamos a ter alguma reflexão subjetiva (e a reflexividade é o que nos caracteriza, nós, pós-modernos urbanos e escolarizados), começamos a enxergar a nossa natureza com mais clareza e buscamos mudar o que não nos agrada, nos prejudica e/ou não é social e culturalmente aceito. A psicologia nos ajuda. A filosofia nos ajuda. Até o dinheiro e o consumo nos ajudam nessa tarefa. Tentamos nos tornar algo, um "outro", que nos parece melhor.
Mas o quanto conseguimos de fato transformar a nossa natureza?
Ou, por outro lado, o quanto conseguimos aceitar a nossa natureza e lidar com seus encantos e seus limites?
Afinal, até mesmo o Super Homem tem problemas...

terça-feira, 27 de abril de 2010

Paleta

Entre o céu e o inferno, existe uma infinidade de escolhas a serem feitas, uma miríade de decisões possíveis, uma vasta cartela de nuances a selecionar.
O que nos leva a pender para uma ou outra, a apostar num tom e deixar de lado outro, é mesmo a nossa subjetividade, o que somos ou podemos ser em determinados momentos. No fim, somos nós, e ninguém mais, os autores dessa obra aberta que é a nossa vida.
Mas dá sempre para, numa segunda observação, com mais atenção, menos apego, num outro enquadramento ou adotando um ponto de fuga diferente, fazer retoques aqui e ali. Melhorar, mudar, apagar até.
No dia-a-dia, assim como na pintura, há bem poucas decisões irreversíveis. E nenhuma delas é perfeita - ao menos não para todo o público.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O que você seria se não tivesse que pagar as contas?

Eu tenho esse primo que quase nunca encontro. Nos vemos após intervalos de mais ou menos 15 anos, o que significa que, quando conversarmos novamente, eu serei praticamente uma cinquentona. Mas eu gosto dele porque ele tem um jeito "laid back" de levar a vida, fazendo o que lhe dá prazer sem dar satisfação a ninguém e tampouco se importando com os julgamentos alheios - e são sempre muitos porque ele não é convencional, apesar de tampouco ser radical.
Enfim. Da última vez em que estivemos juntos, em 2008, ele saiu com essa, assim, do nada: "Não é o trabalho que nos define, né, prima?". Eu concordei, mas fiquei refletindo. Eu sei que ele tem razão, mas minhas atitudes não refletem, antes contradizem, esse pensamento. Eu acredito na verdade do que ele disse, mas ajo como se não acreditasse, tudo por causa desses condicionantes sociais, familiares, culturais que nem sei de onde surgiram - só sei que colaram em mim.
Ele usou o "nos" porque nem eu nem ele sonhávamos terminar como servidores públicos federais. Porque tínhamos esses nossos sonhos, devaneios, talentos que fomos deixando pelo caminho rumo à "adulticidade". Mas assim terminamos (talvez não tenhamos ainda terminado, quem sabe) e não nos resignamos a essa condição, a esse rótulo comportamental. Então damos as nossas escapadinhas - as minhas sendo majoritariamente via o que escrevo nos meus blogs.
Então na semana passada, conversando com outra prima, esta eu sempre vejo, fizemos um exercício: qual seria a sua "profissão" se você não tivesse que ganhar dinheiro para pagar o aluguel, a prestação e as contas de todo os meses? Ela disse que seria roteirista, e eu disse que seria escritora, mesmo que os roteiros dela nunca saíssem da gaveta e absolutamente ninguém, nem meus familiares mais próximos, lessem o que escrevo. Gostei do exercício. Não posso ainda ser oficialmente escritora, mas vou abraçar a filosofia do primeiro primo e simplesmente me descolar do trabalho. Me redefinir.

domingo, 25 de abril de 2010

Uma decepção e uma surpresa

Esta rubrica do blog anda meio bissexta, eu sei, mas recentemente tive o dinheiro para a oportunidade de ir a dois lugares aqui no bairro sobre os quais vale a pena falar.
Um foi uma boa surpresa, o outro, uma decepção.
A boa surpresa ficou por conta do Sushi Laranjeiras.
Já tinha ouvido falar bem do restaurante via "Bairro das Laranjeiras", mas confesso que ficava com um pé atrás. Primeiro porque era no lugar onde antes funcionava o Daruma, um japa bem honesto, do qual gostava bastante. Segundo porque durante um tempo, que suponho foi a transição de um para o outro, o restaurante não tinha nome, apenas uma placa onde se lia "Restaurante Japonês", assim, genérico. Pensei: não pode ser boa coisa. Mas a Isabel Vidal falava bem, e eu passei a confiar nela como blogueira, então achei que devia arriscar - e todos sabem que não sou de fazer isso.
Fui, arrisquei e petisquei.
O lugar continua precisando de um banho de loja, sobretudo o banheiro, situação que não mudou desde os tempos do Daruma. Bem, eu já me cansei de falar isso: não entendo por que os restaurantes cariocas têm tanto descaso com o ambiente. Mas algo mais tampouco mudou: a qualidade versus o preço. Na época do Daruma já era uma relação muito boa, e arrisco dizer que ficou ainda melhor.
Bebemos saquê nacional, comemos guioza, temakis (2) e um yakissoba do chef, muito bom, com lulas, nirá e shitake, comemos sobremesa (banana caramelada), e a conta não chegou a R$ 50 por pessoa. Estava tudo uma delícia - nota de desgosto pela alga do temaki, não tão crocante quanto eu gostaria -, e saímos satisfeitos, felizes e sem "dor de bolso".
O bufê custa menos de R$ 40 e durante a semana chega a R$ 26,90, se não me engano, sendo que, se você só quiser comer pratos quentes, paga apenas R$ 19,90 pelo bufê de segunda a sexta. Eu não gosto de bufê, mas estou até pensando em testar também.
Agora a decepção: o Luigi's.
Talvez eu já tenha até falado bem do restaurante italiano aqui, mas da última vez que fui lá, no feriado de Tiradentes, saí com um gosto amargo na boca. Meu spaguetti alla sereníssima de sempre estava muito abaixo da média, indigno, eu diria até. Dava para contar os camarões nos dedos de uma mão, e os que contei estavam, de fato, duros, alguns com uma areiazinha dentro, e sem gosto: típicos camarões congelados de segunda. Um verdadeiro desperdício daquela massa al dente perfeita. Feio, Luigi's!
E feio também estava o salão interno, com paredes descascando e ar-condicionado pingando, onde preferimos ficar porque a mesa do lado de fora onde primeiro nos instalamos estava quebrada, e a segunda ficava ao lado de um cano de algo que tinha cheiro de Pinho Sol, o que definitivamente não combina com um bom jantar a dois no feriado.
Minha cara-metade diz que o prato dele, um tagliatelle com lula em sua tinta, estava ótimo, mas eu juro que fiquei observando e vi bem pouca lula também. Resultado: se eu já indiquei o Luigi's antes, estou desindicando por um tempo.